A escola e o direito da criança ao mundo
Por que sou contra o homeschooling
Por que sou contra o homeschooling
A escola e o direito da criança ao mundo. Por que sou contra o homeschooling.
A escola não existe para substituir a família. Ela existe para garantir que toda criança tenha acesso a um mundo maior do que aquele em que nasceu.
Ao longo de anos em sala de aula, aprendi uma lição que os livros não ensinam.
Nenhuma criança chega à escola apenas com uma mochila nas costas. Ela chega trazendo aquilo que vive dentro de casa.Algumas chegam cercadas de carinho, diálogo, limites e bons exemplos. Outras reproduzem preconceitos, desrespeito, falta de empatia e violência. Há ainda aquelas marcadas pela negligência e pelo abandono.
Foi convivendo diariamente com essa realidade que construí minha posição sobre o homeschooling.
Sou um defensor da família.Acredito que pai e mãe são os primeiros educadores dos filhos. É dentro de casa que a criança aprende os primeiros valores, forma o caráter e dá os primeiros passos na vida.
Mas a família não substitui a escola.
Essas duas instituições não competem. Elas se completam.
A própria Constituição Federal afirma que a educação é dever da família e do Estado, com a colaboração da sociedade. Isso revela uma verdade simples: educar uma criança é uma responsabilidade grande demais para ficar nas mãos de uma única instituição.
Tenho dificuldade em aceitar a ideia de que toda família esteja preparada para assumir, sozinha, a educação escolar dos filhos...Não está!
Não digo isso por pessimismo. Digo porque essa é a realidade que encontro todos os dias.
Assim como existem excelentes professores e professores despreparados, também existem pais extraordinários e pais que falham profundamente na missão de educar.
Idealizar a família brasileira não ajuda ninguém. Precisamos olhar para ela como ela realmente é.
A escola não existe apenas para ensinar português, matemática ou história.
Ela é um dos primeiros lugares onde a criança aprende a conviver com pessoas diferentes, a respeitar regras, a lidar com frustrações e a descobrir que o mundo é maior do que a própria casa.
Essa convivência também educa.
Paulo Freire escreveu que ninguém educa ninguém sozinho, essa reflexão continua atual. Crescemos no encontro com o outro, no diálogo e na troca de experiências. É exatamente isso que a escola oferece todos os dias.
Outro aspecto também me preocupa.
Tenho visto crescer uma confusão entre educação e fundamentalismo religioso.
Faço essa crítica com tranquilidade porque sou um homem de fé,a religiosidade faz parte da minha vida e da minha família há muitos anos, justamente por isso, acredito que uma fé verdadeira não precisa ter medo do conhecimento.
Conhecer uma ideia não significa concordar com ela. Conviver com quem pensa diferente não significa abandonar os próprios valores. Significa desenvolver a capacidade de pensar, refletir e fazer escolhas conscientes.
A escola também exerce um papel que raramente é lembrado,ela protege, nela que muitos casos de negligência, violência e dificuldades de aprendizagem são percebidos pela primeira vez. Em muitos casos, é um professor quem percebe que uma criança precisa de ajuda.
O Estatuto da Criança e do Adolescente reconhece crianças e adolescentes como sujeitos de direitos. Entre esses direitos está o acesso à educação e ao pleno desenvolvimento. A escola é parte fundamental dessa proteção.Por isso, enfraquecer a escola nunca me pareceu um bom caminho.
A educação brasileira precisa melhorar. Precisamos de professores valorizados, escolas mais estruturadas e famílias mais presentes,mas afastar a criança da escola não resolverá nenhum desses problemas.
Como professor de História, aprendi que a escola foi uma das maiores conquistas da humanidade, ela permitiu que filhos de trabalhadores sonhassem com a universidade, revelou talentos, ampliou horizontes e abriu oportunidades que muitas famílias, sozinhas, jamais conseguiriam oferecer.
Depois de tantos anos convivendo com crianças e adolescentes, essa é a conclusão a que cheguei: sou contra o homeschooling, pois acredito que toda criança tem o direito de encontrar, além da própria casa, outros professores, outros livros, outras experiências e outras formas de compreender o mundo.
A missão dos pais não é criar filhos para viverem apenas dentro de casa. É prepará-los para viver no mundo, e a escola é uma das maiores aliadas nessa missão.
A família é insubstituível. A escola também.
Quando uma tenta ocupar o lugar da outra, quem perde é a criança.
Nenhuma sociedade possui um patrimônio mais valioso do que suas crianças. Por isso, acredito que educar nunca é isolar. Educar é abrir portas, ampliar horizontes e preparar nossos filhos para viver no mundo sem perder os valores que aprenderam dentro de casa.
Se nós, pais, fizermos bem a nossa parte, podemos olhar com mais tranquilidade para aquilo que ainda precisa melhorar nas escolas, nas instituições e na própria sociedade. Afinal, o amadurecimento também acontece no encontro com pessoas diferentes, na convivência, nos desafios e nas experiências que a vida oferece.
É assim que filhos se tornam adultos. Não presos ao mundo que os pais construíram para eles, mas preparados para transformar o mundo que encontrarão pela frente.