Academicismo e espiritualidade
Quando saber muito não é suficiente
Há algum tempo uma pergunta vem me acompanhando:
O que acontece quando adquirimos a capacidade de questionar quase tudo, mas deixamos de cultivar aquilo que dá sentido à nossa existência?
A pergunta pode parecer estranha vindo de um professor. Passo boa parte da minha vida estudando e ensinando. Acredito na educação, na ciência, na leitura e na importância de aprender a pensar, mas a vida também me ensinou que uma pessoa pode conhecer muita coisa sobre o mundo e ainda conhecer muito pouco sobre si mesma.
Podemos ter graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, podemos conhecer grandes pensadores, dominar teorias complexas e ainda assim chegar em casa, fechar a porta e sentir um enorme vazio.
A Psicologia pode nos ajudar a compreender nossas emoções. A Sociologia, nossas relações. A História, nossa caminhada. A Medicina cuida do nosso corpo e da nossa mente. Tudo isso é importante e merece respeito, mas permanece uma pergunta muito simples:
Para que estou vivendo?
É nesse lugar que encontro a espiritualidade!
Não é fanatismo. Não acredito numa fé que nos mande parar de pensar, desprezar a ciência ou recusar auxílio quando precisamos. Falo da espiritualidade que nos ajuda a reconhecer que não somos suficientes para nós mesmos.
Um Mestre feito por Deus disse um dia que “o conhecimento material é uma boa base para o conhecimento espiritual”.
Gosto muito desse ensinamento porque ele não coloca conhecimento e espiritualidade como inimigos. Ao contrário. O conhecimento é uma base.
Mas uma base existe para que alguma coisa seja construída sobre ela e fico pensando se não estamos construindo bases cada vez maiores, mais bonitas, cheias de títulos e conhecimentos, enquanto esquecemos de construir a casa.
Podemos saber muito e não saber perdoar, podemos estudar profundamente o comportamento humano e não conseguir compreender quem está ao nosso lado, podemos falar sobre amor e não saber amar, podemos estudar e participar de uma religião e nunca experimentar verdadeiramente a presença de Deus.
Quando tudo precisa ser desconstruído, aos poucos podemos começar a desconstruir também aquilo que nos sustentava.
A fé vira ingenuidade. Os princípios passam a ser relativos, banalizados. A fidelidade parece coisa do passado. Os relacionamentos ficam cada vez mais frágeis, líquidos. Deus vai ficando distante.
E continuamos estudando, lendo, discutindo e argumentando.
Mas isso não significa que estamos vivendo melhor.
Em minha caminhada como professor, pai e também acompanhando pessoas em suas dificuldades, aprendi que existem momentos em que os títulos desaparecem. Diante da dor, da perda, da solidão ou de uma crise profunda, sobra simplesmente um ser humano procurando um chão onde pisar.
Algumas respostas encontramos nos livros. Outras na ciência, numa boa conversa ou no acompanhamento profissional e tudo bem, mas acredito profundamente que existem lacunas dentro de nós que somente Deus consegue preencher.
Não quero estudar menos. Quero continuar aprendendo, questionando e mudando de opinião sempre que perceber que estava errado, só não quero que, nesse caminho, o conhecimento ocupe dentro de mim o espaço que pertence a Deus.
Conhecer o mundo é importante, questionar e ampliar nossos horizontes também. Mas de pouco adianta acumular conhecimento se, nesse caminho, perdemos aquilo que nos faz humanos, os valores que orientam nossas escolhas e a dimensão espiritual que dá sentido à nossa existência.
Que o conhecimento nos faça enxergar mais longe, mas que não apague a luz que carregamos dentro de nós.
Há um mundo inteiro para conhecer, ideias para compreender, perguntas para fazer e respostas para buscar. Mas há também uma vida interior que precisa ser cultivada.
É preciso deixar espaço para o silêncio, para a consciência, para a fé, para aquilo que não se explica apenas com palavras. É Preciso deixar espaço para Deus em nosso coração e em nosso pensamento.