O cansaço que chamam de liberdade
Outro dia ouvi novamente uma frase que tem se tornado comum:
"Ninguém quer trabalhar."
Às vezes a conversa vem acompanhada de outra explicação pronta:
"O Bolsa Família está acomodando as pessoas."
Confesso que sempre desconfio de respostas simples para problemas complexos.
Dou aula há anos. Converso diariamente com jovens, pais, mães, trabalhadores, desempregados, pequenos comerciantes e profissionais de diferentes áreas. O que vejo está muito distante das explicações fáceis que costumam circular nas redes sociais.
Existem pessoas que se acomodam? Claro que existem.
Mas reduzir a realidade brasileira a isso é fechar os olhos para transformações profundas que aconteceram no mundo do trabalho nas últimas décadas.
A pergunta que me faço não é apenas por que algumas pessoas não querem determinados empregos.
A pergunta é outra:
Que tipo de trabalho estamos oferecendo?
Durante boa parte do século passado, o sonho de milhões de brasileiros era conseguir um emprego formal. Não porque fosse perfeito. Não era.
Mas havia uma perspectiva de estabilidade.
Havia férias.
Décimo terceiro.
Aposentadoria.
Direitos.
Havia a sensação de que o esforço de hoje poderia construir um amanhã melhor.
Enquanto isso, o Brasil possuía um setor industrial mais forte, capaz de gerar empregos de maior qualificação e melhores salários.
Nada disso aconteceu por acaso.
Nas últimas décadas, sob a influência das políticas neoliberais, fomos ouvindo a mesma promessa repetidas vezes.
Menos Estado.
Menos regulamentação.
Menos direitos.
Mais liberdade econômica.
Mais eficiência.
Mais prosperidade.
A teoria era bonita.
A realidade foi outra.
Assistimos à desindustrialização do país.
Vimos empregos formais serem substituídos por relações cada vez mais frágeis.
A informalidade cresceu.
A insegurança cresceu.
E os direitos trabalhistas passaram a ser apresentados como obstáculos ao desenvolvimento.
Foi nesse cenário que surgiu uma figura celebrada como símbolo da modernidade:
O empreendedor de si mesmo.
O motorista de aplicativo.
O entregador.
O trabalhador de plataforma.
A propaganda é sedutora.
"Você é seu próprio patrão."
Mas quem define o valor da corrida?
Quem determina as regras?
Quem distribui as demandas?
Quem controla os algoritmos?
Quem pode desligar o trabalhador da plataforma sem sequer olhar em seus olhos?
O patrão não desapareceu.
Ele apenas ficou invisível.
Hoje milhares de trabalhadores utilizam seu próprio carro, sua própria moto, seu próprio combustível e sua própria estrutura para gerar riqueza para empresas que sequer precisam assumir os mesmos compromissos que assumiam no passado.
Chamam isso de autonomia.
Eu vejo outra coisa.
Vejo pessoas trabalhando cada vez mais para manter um padrão de vida cada vez mais difícil de alcançar.
Vejo jornadas exaustivas.
Vejo ansiedade.
Vejo cansaço.
Vejo famílias pagando a conta de um modelo que prometeu liberdade.
O filósofo Byung-Chul Han descreve algo semelhante em sua obra Sociedade do Cansaço.
Segundo ele, a grande marca do nosso tempo é que não precisamos mais de alguém nos vigiando o tempo todo.
Nós mesmos assumimos esse papel.
Cobramos mais de nós.
Produzimos mais.
Corremos mais.
Aceitamos mais tarefas.
Aceitamos mais jornadas.
Aceitamos mais pressão.
Até o esgotamento.
Até adoecer.
Até acreditar que qualquer fracasso é exclusivamente culpa nossa.
Essa é uma das maiores vitórias do pensamento neoliberal.
Transformar problemas coletivos em fracassos individuais.
Se você venceu, o mérito é seu.
Se você fracassou, a culpa também é sua.
Desaparecem da conversa a desigualdade, a concentração de renda, a precarização do trabalho, a desindustrialização e as escolhas políticas que moldaram a sociedade em que vivemos.
Tudo passa a ser explicado pelo esforço individual.
Mas a vida real não funciona assim.
Enquanto discutimos se o problema é o Bolsa Família, milhões de brasileiros acordam antes do sol nascer e retornam para casa quando seus filhos já estão dormindo.
Enquanto repetimos discursos prontos, pais e mães sacrificam sua saúde, seu tempo e sua convivência familiar tentando sobreviver.
E é aqui que essa discussão deixa de ser apenas econômica.
Ela se torna humana.
Porque toda escolha econômica chega dentro de casa.
Chega na mesa do jantar.
Chega na educação dos filhos.
Chega nos relacionamentos.
Chega na saúde mental.
Chega na qualidade de vida.
Como educador, vejo jovens sendo preparados para competir.
Como pai, me preocupo se estamos preparando esses mesmos jovens para viver.
Uma sociedade não pode ser considerada saudável quando o trabalho consome a vida das pessoas e isso é vendido como liberdade.
Uma sociedade não pode se desenvolver plenamente quando transforma proteção social em privilégio e precarização em oportunidade.
O Brasil precisa despertar.
Precisa reaprender a pensar criticamente.
Precisa abandonar slogans, simplificações e respostas fáceis.
Porque a questão nunca foi apenas quem quer trabalhar.
A verdadeira questão é que tipo de trabalho, que tipo de país e que tipo de futuro estamos construindo.
E essa resposta interessa a todos nós.
Principalmente aos nossos filhos.