Precisamos falar seriamente sobre as bets e nossos jovens
Outro dia, durante uma aula no Ensino Fundamental, o assunto chegou às apostas on-line.
Perguntei quem conhecia as famosas bets.
Várias mãos se levantaram.
No meio da conversa, um aluno comentou, com a naturalidade de quem fala sobre um jogo qualquer, que havia perdido dinheiro na noite anterior.
Olhei para ele e disse que aquilo não era uma boa ideia. Que seus pais certamente não ficariam felizes se soubessem.
Ele respondeu, sem qualquer constrangimento:
— Meu pai joga comigo.
Naquele instante, fiquei sem palavras.
Percebi que o problema era muito maior do que imaginava. Quando quem deveria ensinar os limites também participa da armadilha, sobra pouco espaço para qualquer orientação.
Desde então, essa cena não saiu da minha cabeça.
Ela me fez lembrar de Hannah Arendt e de sua reflexão sobre a banalidade do mal. Não porque as apostas possam ser comparadas aos acontecimentos que inspiraram sua obra, mas porque sua ideia ajuda a compreender um fenômeno perigoso: aquilo que se torna cotidiano deixa de causar espanto.
Foi exatamente isso que aconteceu com as bets.
Elas invadiram a televisão, os estádios, as redes sociais e, sem que percebêssemos, também entraram em nossas casas. Transformaram o risco em entretenimento, o vício em diversão e a perda em esperança.
Estamos formando uma geração que cresce acreditando que dinheiro pode surgir da sorte, e não do trabalho. Que enriquecer depende mais de um clique do que de estudo, dedicação e perseverança.
Enquanto isso, famílias se endividam, jovens desenvolvem comportamentos compulsivos e sonhos são substituídos pela ilusão do ganho fácil.
O mais preocupante é que deixamos de discutir se esse caminho faz sentido. Passamos apenas a discutir qual aposta fazer.
Como professor, aprendi que ensinar não se resume ao conteúdo da disciplina. Há momentos em que educar significa ajudar um jovem a reconhecer perigos que a sociedade insiste em tratar como algo normal.
Naquele dia, não consegui convencer aquele menino.
Mas saí da sala convencido de que nós, adultos, precisamos fazer um exame de consciência.
Nenhuma campanha publicitária é mais forte do que o exemplo vivido dentro de casa.
Se um filho aprende a apostar ao lado do próprio pai, o problema já não está na tela do celular.
Está diante do espelho.