Enquanto Alguns Sobem Montanhas, João Batista Continua Pregando no Deserto
Nestes dias em que vivenciamos as festas de São João, alguns pensamentos me acompanharam. Entre uma lembrança e outra sobre a vida de João Batista, eles acabaram se transformando neste texto.
João Batista pregava no deserto.
Não no templo. Não nos palácios. Não onde estavam os poderosos.
Pregava no deserto porque é no silêncio que o ser humano encontra aquilo que passou a vida inteira tentando esconder de si mesmo.
Vivemos um tempo interessante, nunca houve tantos homens procurando aprender a ser homens.
São retiros, desafios, montanhas, rituais, certificados, fotos, discursos e grupos de validação masculina. Homens ensinando homens a serem homens, muitas vezes a participação é cobrada e não costuma ser barata.
Não há problema algum em buscar crescimento, o problema é quando a busca deixa de ser por transformação e passa a ser por reconhecimento. Percebo que parte desses movimentos produz muito mais validação do ego do que reforma íntima. A verdadeira mudança não acontece diante de uma plateia, acontece quando ninguém está olhando, acontece quando um homem reconhece sua arrogância, quando admite que feriu quem ama, quando abandona a necessidade de estar sempre certo, quando troca a vaidade da aparência pela humildade da mudança.
Subir uma montanha exige esforço, mas enfrentar o próprio orgulho exige muito mais.
Caminhar quilômetros é difícil, difícil mesmo é pedir perdão.
Receber aplausos de outros homens fortalece a autoestima, reconhecer os próprios erros fortalece o caráter.
Existe uma enorme diferença entre transformação e encenação, a primeira produz seres humanos melhores, a segunda produz personagens e estamos vivendo uma época repleta de personagens, homens que falam de liderança, mas não lideram a própria casa, que falam de honra, mas não sabem ouvir uma crítica, que falam de força, mas são incapazes de controlar a própria vaidade, que buscam a aprovação de outros homens enquanto ignoram o olhar dos filhos, da esposa e da própria consciência.
A hipocrisia raramente se apresenta com esse nome, ela costuma vestir roupas mais elegantes, as vezes se apresenta como espiritualidade, as vezes como desenvolvimento pessoal, as vezes como masculinidade.
João Batista não chamava as pessoas para se sentirem especiais, chamava para o arrependimento e arrependimento é uma palavra cada vez mais rara porque exige honestidade.
Exige olhar para dentro, reconhecer sombras e abandonar desculpas. Exige morrer um pouco para renascer melhor.
Como marido, pai e professor, aprendi que os momentos mais importantes da minha caminhada não aconteceram quando fui elogiado, mas quando fui obrigado a encarar minhas próprias contradições, foi ali que cresci e amadureci alguma coisa. Foi ali que encontrei Deus trabalhando exatamente onde mais doía.
A montanha mais importante não está na paisagem, está dentro de nós e continua sendo a mais difícil de todas, porque não pode ser conquistada com fotografias, certificados, aplausos ou validação externa, ela só pode ser vencida com verdade.