Educação, religião e a fabricação da dependência
Sou um homem de fé.
A religiosidade faz parte da minha vida, da minha família e da forma como compreendo o ser humano. Justamente por isso, me sinto à vontade para fazer a crítica que segue, ela não é dirigida à religião, mas aos desvios de algumas instituições religiosas; não é contra a fé, mas contra sua utilização como instrumento de manipulação, dependência e poder.
Sempre me chamou a atenção o quanto educação e religião compartilham uma mesma vocação: ambas podem contribuir para libertar o ser humano se bem direcionadas ou podem ser utilizadas para mantê-lo dependente.
No meu livro Carta aos Pais, defendo que a missão da educação é formar filhos capazes de pensar, discernir, assumir responsabilidades e caminhar com as próprias pernas. Educar não é criar dependência, mas preparar para a autonomia, neste contexto podemos fazer a mesma reflexão sobre a religião.
Paulo Freire defendia que educar não é depositar respostas prontas na mente das pessoas, mas despertar nelas a capacidade de compreender criticamente o mundo. Quando a educação deixa de formar sujeitos e passa a formar repetidores, ela perde sua essência e abre possibilidades para manipulação externa.
Uma experiência religiosa autêntica deve favorecer o amadurecimento espiritual, a responsabilidade pessoal e a transformação interior. Entretanto, quando a fé passa a desencorajar perguntas, a substituir reflexão por obediência cega e a transformar líderes em autoridades incontestáveis, ela deixa de formar consciências e passa a administrar dependências.
O psicanalista e psicólogo social Erich Fromm observava que a liberdade assusta. Pensar por conta própria exige coragem. Assumir responsabilidades é mais difícil do que entregar a própria vida às decisões de outra pessoa. Não por acaso, muitos preferem sistemas que prometem respostas simples para problemas complexos. Em troca da autonomia, recebem uma falsa sensação de segurança. Essa lógica encontra terreno fértil em uma sociedade marcada pela carência, pela insegurança econômica e pela solidão.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve nosso tempo como uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos. Vivemos cercados por imagens, emoções rápidas e recompensas instantâneas, um ambiente que a neurociência associa a sucessivas descargas de dopamina. Nesse contexto, o silêncio se torna insuportável, a espera parece um desperdício e a reflexão profunda perde espaço para a busca incessante por novas distrações.
É preciso ter atenção e honestidade intelectual quando a emoção substitui a consciência. Quando a emoção se torna o principal critério da experiência religiosa, corre-se o risco de confundir euforia com espiritualidade. Nesse ambiente, a boa-fé das pessoas pode se tornar um recurso extremamente lucrativo, em que a carência humana deixa de ser acolhida para ser explorada, a esperança se transforma em produto, a fé se converte em mercado e líderes religiosos tornam-se administradores de verdadeiros impérios financeiros sustentados, muitas vezes, pelo sacrifício silencioso daqueles que têm menos recursos.
Zygmunt Bauman afirmava que vivemos em uma modernidade líquida, marcada por relações cada vez mais frágeis, velozes e descartáveis. Essa lógica também alcançou parte da experiência religiosa. Em vez de comunidades comprometidas com a formação do caráter e a transformação humana, multiplicam-se espaços voltados ao consumo de milagres, campanhas e soluções imediatas. Muitos passam a buscar a próxima experiência emocional capaz de aliviar, ainda que temporariamente, as angústias da existência, sem enfrentar o longo e exigente caminho da mudança interior.
É importante destacar que a verdadeira espiritualidade não promete atalhos. Ela não elimina o sofrimento, mas ensina a atravessá-lo. Não infantiliza o ser humano; amadurece-o. Não cria dependentes; forma pessoas livres. Essa transformação depende de um querer verdadeiro: da decisão de abandonar as ilusões que alimentam o ego, enfrentar as próprias sombras e assumir, com humildade e responsabilidade, o trabalho permanente de aperfeiçoamento interior.
A verdadeira religião não conduz à idolatria de líderes nem transforma Deus em instrumento para a realização de desejos individuais ou institucionais. Seu propósito é muito maior: transformar o ser humano de dentro para fora, ampliando consciência, responsabilidade, amor ao próximo, equilíbrio, humildade e capacidade de servir.
Assim como precisamos de uma educação que ensine a pensar, e não apenas a repetir, também precisamos de uma religiosidade que desperte a consciência, e não a submissão. A maior contribuição que pais, educadores e líderes religiosos podem oferecer às novas gerações é formar seres humanos livres, conscientes e responsáveis. Afinal, tanto a educação quanto a verdadeira espiritualidade só cumprem sua missão quando deixam de fabricar dependentes e passam a formar pessoas capazes de pensar por si mesmas, servir ao próximo e trabalhar, antes de tudo, a si mesmas. É dessa transformação interior que nasce a possibilidade de transformar a família, a comunidade e a sociedade.